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Não sobrará tela sobre tela – Especial – Tempo de Disrupção

Ana Carolina Bicalho

Se há uma certeza quanto ao futuro é de que nada e nem ninguém escapará da disrupção digital. Tudo o que puder ser automatizado o será, preveem os especialistas.  A constatação é do Gartner – referência mundial em pesquisa e consultoria em tecnologia. Pode-se perceber no mercado atual de tecnologia robôs, soluções altamente conectadas e dispositivos interativos, que preparam o cenário mundial para o uso da malha digital inteligente, tão anunciada pela consultoria desde 2014.

Essa malha se divide, basicamente, em três grupos: a captura da interação, por meio de tecnologias como Inteligência Artificial (IA) e aprendizado de máquina; o processamento da linguagem por tecnologias que promoverão a interconexão do mundo digital com o mundo real; e a troca de dados possibilitada por plataformas e serviços que entregarão toda essa inovação aos usuários finais.

A Quarta Revolução chegou

A nova sociedade que está se delineando é fortemente baseada em realidade virtual e Internet das Coisas (ou IoT, Internet of Things). Para o especialista em gestão e negócios, Carlos Alberto Júlio, vivemos o início da chamada Quarta Revolução Industrial. E, como toda revolução ao longo da história, o salto tecnológico que nos empurra para o futuro é grande, irreversível e causa dor.

Essas mudanças trarão impactos sociais e econômicos profundos, que serão duramente sentidos pela obsolescência rápida de determinadas fórmulas de negócios, política, relacionamentos interpessoais e carreiras profissionais. Carlos Alberto não se surpreende com as transformações iminentes que, desde Taylor e do toyotismo, buscam otimizar sistemas de produção e de mercado. “É preciso entender que, a partir de agora, os sistemas integrados de dados aplicados à produção ganharam alguma autonomia. Não quer dizer que seremos escravos das máquinas, mas que teremos também de aprender com elas”, afirmou o vice-presidente do Conselho Administrativo da Tecnisa S.A.

Não é para menos que, no Fórum Econômico Mundial, realizado em janeiro, a Quarta Revolução Industrial e os contornos definitivos da era digital foram o grande destaque. No evento, foram apresentados os cinco principais desafios que o mundo enfrentará em 2017. Um deles é o gerenciamento das mudanças tecnológicas, considerado o maior desafio do mercado de trabalho hoje. Durante o fórum, foi estimada a perda de 5 milhões de postos de trabalho em 15 países, até 2020, devido aos avanços de robôs e outras plataformas – um impacto enorme, mesmo considerando as centenas de milhares de postos de trabalho que deverão ser criados para acompanhar a revolução digital.

Brasil preocupa

A velocidade com que o Brasil caminha rumo ao digital está aquém da maioria dos outros países, inclusive os emergentes. E, para os especialistas, a situação deve piorar em função da crise econômica. Carlos Alberto Júlio acredita que o principal desafio do Brasil está na área do conhecimento: “Ainda estamos bem distantes do padrão de expertise gerencial e operativa estabelecido nas nações que comandam esse processo. Encaramos ainda a exigência de elevar a produtividade em setores básicos da atividade produtiva”.

Somado a isso, o especialista em gestão e negócios destaca que, apesar do país ter bons exemplos de produção qualificada, como no agronegócio e em setores da indústria de transformação, o Brasil ainda desperdiça muito, tolera a imprecisão e produz coisas das quais as pessoas já não gostam ou não precisam. “A tarefa para o Brasil não é fácil, porque exige uma parceria entre governos e setor privado para prover capacitação aos profissionais, tanto aos ingressantes quanto àqueles que terão de ser remanejados”, conscientiza o executivo.

Celso Chapinotte, diretor do Gartner em Minas Gerais, aposta no potencial do Brasil como early adopted para acompanhar a revolução digital. “Somos reconhecidos no mundo como um país que adota muito cedo tecnologias que caem na mão do consumidor jovem. Independentemente de crise de econômica ou não, vemos nossa juventude utilizando as mídias sociais, os smartphones, o Twitter, os games de Realidade Aumentada; e lideramos isso no mundo”, revela.

De acordo com Chapinotte, previsões do Gartner como o e-commerce em Realidade Aumentada, chatbots de comunicação por voz e interações sem tela devem se multiplicar facilmente por aqui. Já blockchain, bitcoins e soluções que exigirão um alto custo em infraestrutura para execução, por exemplo, estão longe de se tornarem populares no Brasil. O diretor do Gartner teme que o atraso cultural e institucional do país tenha consequências ainda mais graves: “Estamos entrando num mundo em que teremos mais gente desempregada com a entrada de robôs e, no Brasil, a gente ainda está discutindo previdência! O problema é muito maior do que a aposentadoria. A pauta precisa mudar”.

Quem sobreviverá?

Segundo os especialistas, a pergunta acima não tem resposta. Celso Chapinotte esclarece que a sobrevivência dos negócios não depende do tamanho da empresa, do segmento da indústria ou da tecnologia. Para ele, as tecnologias têm graus de disruptura diferentes umas das outras, e tudo depende de como a empresa interpreta o dano que aquela inovação pode lhe causar.

“Os bancos sabem que a disruptura digital os atinge primeiro. Por isso, estão se movendo de maneira mais rápida”, revela o consultor. Já nos setores de mineração e exploração de petróleo, que são mais convencionais, a chegada da inovação não é tão intensa. Mesmo assim, todos deverão ser afetados nos custos de exploração e produção. “Na indústria de mineração, petróleo e óleo do mundo inteiro, a IoT está sendo estudada por toda a equipe de engenharia. As mineradoras, por exemplo, estão reduzindo seus custos com retroescavadeiras autônomas e minas totalmente robotizadas.”

Sobre quem tem mais chances de se beneficiar com o furacão digital, Chapinotte é categórico: quem acreditar nas previsões e se preparar. “É escolha de cada um acreditar numa previsão que indica que, em 2022, um negócio baseado em blockchain valerá mais do que US$ 10 bilhões. Tem gente que consulta e considera as previsões nos seus planos de negócio, tem gente que não”, conta. Só a partir dessa consciência será possível decidir quais ações servirão como base para mitigar riscos, investir em inovações, transformar o negócio, firmar novas parcerias, reeducar processos e adequar o know-how da empresa.

Na opinião do especialista Carlos Alberto Júlio, as empresas que se destacarão serão as que compreenderem, em tempo real, o que se passa na cabeça das pessoas, desde as que trabalham na corporação até os consumidores. “Hoje, uma marca pode sofrer terrivelmente pela ação de detração ou sabotagem de cidadãos que nunca compraram ou comprarão seus produtos”, enfatiza. Neste novo cenário, o valor de cada empresa estará na boa conexão colaborativa. O executivo resume que o grande desafio será produzir sincronias: “A Quarta Revolução não se define por um conjunto de tecnologias emergentes em si mesmas. Ela se define como um fazer em evolução, uma transição rumo a novos sistemas que estão sendo construídos sobre a infraestrutura gerada na terceira revolução”.

A realidade do cinema não está mais distante, e a tendência é positiva. Se há dificuldade, também há oportunidade. E é isso o que mostraremos nas próximas

Acesse na integra: http://revista.sucesuminas.org.br/revista/revista-inforuso-no-12/

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